“Por que demorou tanto para contar do abuso?”: psicóloga responde para que não perguntem mais

"Por que demorou tanto para contar do abuso?": psicóloga responde para que não perguntem mais

Tem sido comum ouvir uma mesma pergunta sempre que um caso de abuso é denunciado e diversas mulheres se unem para contar o que viveram – e que nunca antes tinham revelado, mesmo já passado muito tempo do ocorrido. “Mas por que só está falando sobre isso agora, tantos anos depois?”, questionam muitas pessoas.

Desde o surgimento dos movimentos Time’s Up e #MeToo, em que um grupo de atrizes de Hollywood se mobilizou para denunciar os assédios feitos por atores, diretores e produtores, a impunidade deixou de ser a arma favorita dos abusadores.

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Agora, o mesmo está acontecendo na América Latina. Na Argentina, uma denúncia pública feita pela atriz Thelma Fardín, com respaldo de um coletivo de atrizes, comoveu todo o país. Em um duro depoimento, a artista de 26 anos contou que foi violentada aos 16 pelo ator Juan Darthés, na época com 45 anos, durante um trabalho na Nicarágua.

“Por que ela não contou antes?”, foi o argumento generalizado que circulou em resposta à garota que tentava verbalizar o que havia acontecido nove anos atrás. “Por que esperou tanto tempo?”, se perguntaram aqueles que acreditam que existem outros interesses por trás de seu relato

O que acontece é que essa não foi a primeira vez que isso aconteceu por lá (e nem o único país que vivenciou uma situação como essa). No Brasil, quase que ao mesmo tempo, o médium João Teixeira de Faria, conhecido como João de Deus, foi acusado de abusar sexualmente de centenas de mulheres, durante tratamentos espirituais realizados na Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia (DF).

Caso João de Deus no Brasil

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O caso mais recente no Brasil veio à tona por dez vítimas que relataram suas experiências durante entrevista ao programa “Conversa com Bial”, da TV Globo. Desde então, o Ministério Público recebeu mais de 500 denúncias de abusos sexuais cometidos pelo médium, registradas por mulheres de vários estados brasileiros e de seis países diferentes.

Em meio a todas as denúncias, que partiram de pessoas que fizeram a acusação em público e outras que preferiram não revelar suas identidades, também chamou atenção a reação de quem questionou a credibilidade das vítimas. Mais uma vez, a sociedade voltou a perguntar: “Por que elas não falaram antes?”.

Cintia González Oviedo é psicóloga especializada em gênero e diretora da Bridge The Gap, uma organização que fomenta a igualdade de gênero em organizações. Em conversa exclusiva com o VIX, ela explicou quais podem ser as sequelas para a vítima de abuso e por quê não é possível falar de “tempo”, quando se trata de um episódio traumático.

Por que vítimas de abuso reagem da forma diferente?

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Segundo a especialista, a primeira coisa que precisamos entender é que, quando ocorre um abuso, há ali uma relação assimétrica de poder entre a vítima e o abusador. Muitas vezes, não acontece a denúncia por conta dessa mesma situação de desvantagem.

Ainda na sociedade atual, a palavra de uma mulher tem menos valor que o discurso de um homem. “Estamos inseridos em um sistema de poder no qual a pessoa em quem menos acreditamos é a vítima e ela será culpada até mesmo por sua própria morte”, afirma.

“Viajava sozinha em um país desconhecido”, “usava shorts muito curto”, “andava sozinha na rua de madrugada”. Esses são alguns dos comentários que são repetidos quando os casos de feminicídio aparecem na televisão. A ideia de que “ela deve ter feito algo” se transforma no argumento que cala qualquer possibilidade de denúncia.

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Desse modo, a vítima enfrenta uma “crítica” imposta estruturalmente em nossa sociedade, que torna impossível a possibilidade de verbalizar o episódio traumático. É preferível ficar quieta do que ser apontada como uma “mulher fácil” e aceitar essa culpa social que nos é imposta desde quando somos pequenas.

“Ao não conseguir processar psicologicamente o ocorrido, a vítima pode desenvolver um estresse pós-traumático que tem muitas consequências graves, como depressão, ansiedade, irritabilidade e isolamento social”, aponta a psicóloga.

Vergonha e culpa pelo abuso

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Nesse sentido, para a vítima, a culpa e a vergonha são tão grandes que um cenário é criado para justificar, de certa maneira, o fato de ela ter sido abusada – assim como a sociedade também faz com ela: “deve ter sido algo que eu falei”, “eu fiz alguma coisa para merecer isso”.

Tomar consciência de um assédio é a parte mais difícil. Isso porque, de acordo com Cintia, a vítima buscará uma maneira de não enfrentar essa situação, tentando esquecê-la ou seguindo com sua vida. No entanto, as recordações podem ressurgir através de pesadelos ou de situações que farão lembrar do ocorrido.

Por isso, a psicóloga recomenda e diz que é necessário que a vítima passe por um processo de tratamento muito complexo, para que ela consiga enfrentar essa memória no futuro.

Assumir o papel de vítima de abuso não é fácil

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Para Cintia, em todos os casos de abuso, a reputação da vítima fica abalada. No caso de pessoas famosas elas acabam ficando ainda mais vulneráveis. Há uma humilhação da qual a mulher não consegue se desvencilhar e se expor publicamente com um fato tão doloroso pode ser ainda pior.

“A sociedade reforça essa difamação da integridade humana da qual a vítima sofre, seja porque não acreditam nela ou porque a culpam pelo que aconteceu. Então, o silêncio é a única opção. Assumir o papel de vítima de um abuso é um estigma social. E aí surgem pensamentos como: ‘não vou conseguir trabalho’, ‘o que meu namorado vai pensar se eu contar isso?’. O que acontece é que há um temor de perder tudo”, explica.

Mulheres diferentes em condições diferentes

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Outra questão levantada pela psicóloga é que não é o mesmo ser uma mulher famosa, que tem acesso aos meios de comunicação e possui recursos econômicos, e ser uma pessoa que não encontra suporte, nem uma maneira viável, de custear seus gastos nesse contexto.

“A menina do bairro que sofre um abuso vai à delegacia denunciar o ocorrido totalmente sozinha. E a partir daí, vai entrar em todo um processo de re-vitimização, que é resultado do sistema judicial de qualquer país. Vão colocar obstáculos no caminho o tempo todo e vão fazê-la reviver o que ela passou. Isso é algo que te obriga realmente a optar por não denunciar”, afirma Cintia.

Imagem errada de um abusador

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Dentro do imaginário popular, também está instalada a crença de que o abusador é necessariamente monstruoso ou alguém que podemos reconhecer facilmente por sua aparência e sua maneira de ser. Porém, segundo a psicóloga, é importante acabar com essa percepção errada.

“A gente tende a crer que o abusador é uma pessoa estranha, que ataca em um beco escuro sem saída ou em um terreno baldio. De fato, existe esse tipo. Mas também há os abusadores que podem ser amigos, parentes, gente que trabalha conosco e que podem ser de confiança. O violador não é uma raridade. Acreditar nisso é um grande obstáculo para a vítima, porque pode acabar com sua credibilidade, na maioria dos casos”, finaliza.

Assim como as centenas de vítimas de João de Deus, milhares de mulheres também decidem abrir uma porta e acabar com a escalada do silêncio que aprisiona tantas pessoas ao redor do mundo. Isso mostra que, diante da pergunta “por que não denunciou antes?”, existe uma resposta clara e direta: “porque AGORA quero”.

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Fonte: VIX

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